Aceitar o próprio corpo: um dever diário de amor próprio e paciência

Atualizado: Jul 12


Foto por Amanda Lima

Para aqueles que não se encaixam no padrão de beleza estabelecido, receber um olhar torto, uma retorcida de nariz e um comentário ácido dos outros é comum. Se gorda, vai ganhar diversas dicas de como perder peso, receber indicação de qual dieta seguir e pode escutar, ainda, o famoso comentário: “você é tão bonita de rosto, só falta emagrecer”. Mas calma, por que o tamanho do corpo implica beleza? O que o peso de alguém tem a ver com a vida de outro? Por que ser gorda incomoda?


Para mulheres gordas, realizar algumas atividades do cotidiano pode ser uma tarefa árdua e desconfortável. Por exemplo, a social media Fernanda Amador, 25, é constantemente condenada por estar acima do peso. A discriminação surge ao exercer tarefas simples, seja fazendo compras, comendo em local público e até em uma consulta médica. “Já passei por situações de julgamento por ser gorda, em que até mesmo amigos achavam que eu não poderia ser um casal com um moço magro por não ser proporcional a mim”, afirma.


Entretanto, o padrão de beleza não é algo exclusivo dos dias de hoje. Como explica o doutor em antropologia pela Universidade de Brasília, José Zuchiwschi, é estabelecido um padrão para que um indivíduo entenda o outro e se relacione mais facilmente. “Na nossa socialização, aprendemos quais signos e símbolos devemos usar isso influencia no estabelecimento da comunicação e da interpretação de tudo aquilo que está em volta”, completa. O conceito de belo é moldado de acordo com a cultura, a época e a localidade. Por exemplo, no renascimento, a mulher só era considerada bela se correspondesse ao padrão Vênus de Botticelli – corpo curvilíneo, pele alva e bochecha rosada. Enquanto atualmente, é comum a disseminação e estímulo de corpos magros e sarados, o corpo “fitness”.


Hoje, a magreza é considerada o padrão de beleza e é o desejo de muitas mulheres, principalmente das jovens. Aliás, a preocupação com o peso é tão grande que, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um terço das meninas de 14 e 15 anos do Brasil faz dietas ou mantém atitudes não saudáveis para evitar o sobrepeso. Essa pressão desencadeia não apenas um modelo estético, mas também um modelo de vida. Para a psicóloga Pérola Goulart, a busca pelo corpo ideal pode afetar a vida de uma pessoa ao ponto de que o indivíduo perca o vínculo com a própria identidade. “A aparência física passa a ser exigência, o dever e a responsabilidade de cada um e o corpo passa a ser submetido às amarras da estética. A busca por um enquadramento em um padrão cultural estabelecido pode levar uma pessoa a buscar diversos meios que nem sempre são saudáveis ou indicados”, afirma.


A ideia de seguir determinada estética e comportamento é disseminada na sociedade e perceptível em espaços comuns. Fernanda conta, ainda, como algumas pessoas têm dificuldades em acreditar e aceitar que uma mulher gorda esteja de bem com o próprio corpo. “É difícil verem que uma mulher gorda pode sim ser amada e aceita como ela é, porque o termo ‘felicidade’ sempre vem acompanhado de um ‘apesar de ser gorda’, infelizmente”, desabafa.


A luta constante pela liberdade do próprio corpo é nítida mesmo com a exclusão e a rejeição que a mulher gorda sofre. O antropólogo fala, ainda, da necessidade de desconstrução de padrões ou, pelo menos, de uma visão crítica deles. “Não é negar e jogar fora, é trabalhar a coisa, repensar. Deve haver um resgate na sociedade de que nós temos os direitos sobre o nosso corpo”, ressalta. Além da imposição de um modelo, há também a resistência da sociedade em aceitar o amor próprio daqueles que não se encaixam nos padrões.


Atualmente, é possível encontrar grupos e campanhas que lutam pela normalização da gorda e que buscam promover a representatividade. No facebook, a página Voz das Gordas conta mais de 21 mil seguidores e aborda, diariamente, questões como gordofobia, respeito e empoderamento, além de lutar pelos direitos da mulher gorda. A comunidade teve início em agosto de 2014, mas como um grupo na rede social nomeado de Coletivo Anti-Gordofobia. A ideia era criar um ambiente para debate entre mulheres acima do peso e, a partir disso, formar uma rede de apoio a elas e criar campanhas contra o preconceito.


Além das redes sociais, também tem o engajamento na área de educação. A atriz Babu Carreira promoveu, em 2017, palestras em escolas, para alunos entre 14 e 17 anos, sobre gordofobia e empoderamento. “Eu acredito que explicando como o preconceito é doloroso, de modo direto, explicativo e sem vitimização, o jovem se propõe uma reflexão e, assim, conseguimos evitar sofrimentos futuros”, relata. Quanto à receptividade, Babu relata que as alunas a aborda para falar sobre as pressões de emagrecer ou manter o peso baixo, mas o que mais a impactou foi a reação dos adultos. “É impressionante como a maioria dos professores, coordenadores e diretores que acompanham a apresentação não tinham pensado em como esse bullying afeta a relação que os alunos têm com os próprios corpos e influência na interação entre eles”, conta.


Ao mesmo tempo em que as mulheres estão repensando suas relações com o próprio corpo e se tornando mais receptíveis a autoaceitação, ainda há uma grande parcela da sociedade que não permite isso. Para eles, ser gorda é inaceitável e é incabível que alguém seja feliz assim. Cria-se, a partir disso, restrições à essas mulheres: não podem se achar bonitas, não podem usar roupa curta, não podem ser destaque e tantas outras limitações que impostas. Fica claro que, para a sociedade atual, ser gorda não é permitido.


O peso de ser gorda


A ditadura da beleza cria, portanto, uma opressão e tende a sentenciar aqueles que a rejeitam. O antropólogo conta que a nossa sociedade utiliza o corpo de forma muito mais agressiva na comunicação e interação com o outro. Há um grande incomodo com aqueles que não se encaixam nos padrões, o que gera a discriminação. Surge, então, a gordofobia: a repulsa, o nojo, o sentimento de raiva e a necessidade de se afastar do indivíduo gordo, da gordura e de tudo que a cerca. O preconceito ocorre escancarado, com ofensas e body shaming*, e de modo velado, como sugestões de dietas não solicitadas e olhares de julgamento. Atitudes como essas, por mínimas que sejam, podem abalar a autoestima e trazer consequências mais sérias.


Foto por Amanda Lima

Trata-se do desconforto que há com a fuga do padrão de beleza. Encontrar alguém que está acima e é feliz com isso, para alguns, é um absurdo e há necessidade de isolar e excluir o outro. Tudo o que não condiz com o modelo estabelecido acaba recebendo rótulos e é tratado com estereótipos. Gisele Lima, museologista, explica que as críticas que recebia, tanto da família como de amigos, a fez crescer complexada com a aparência, mas que hoje se olha no espelho e ama seu corpo do jeito que é. “Estou em um momento em que acho minhas dobrinhas, minhas estrias e celulites um charme e usar tamanho 50 não me entristece em nada”, declara.


Segundo a psicóloga, apesar da constante imposição de um corpo ideal, as mulheres estão percebendo mais a importância de fortalecer a própria autoestima e engajadas na autoaceitação delas e das outras. “Nesse sentido, considero sim que cada vez mais encontramos mulheres felizes com o corpo próprio, mas ainda não o sufi ciente para dizermos que estamos livres dessa escravidão ditada pela corpolatria”, analisa.


É necessário, portanto, que a sociedade perceba a diversidade e a multiplicidade que possui e não tenha receio de aceitar aqueles que rejeitam os padrões. Enxergar o próprio corpo de maneira positiva é um exercício a ser realizado diariamente junto ao respeito às diferenças. Não é uma guerra contra aqueles que se encaixam no que é idealizado, mas uma luta pela democratização da beleza e, acima de tudo, respeito aos mais diversos tipos de corpos. Foram anos de imposição de padrões e opressão aos que não se adequavam. Por isso, agora é a hora, é a vez do amor próprio. Vamos dar uma chance?


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