Ser fotografada: romper o medo é preciso

Atualizado: Jul 15


Uma busca rápida na internet e encontramos vários tutoriais de como parecer bem em todas as fotos de viagem ou do dia a dia. Um roteiro quase perfeito para se tornar uma influencer visual” em poucos passos. São posições de braço, de cintura e de câmera, caras, bocas, cruzadas de pernas, descruzadas, alongadas, posadas na frente de belas paisagens turísticas. Por ali desfilam várias mulheres “padrão” mostrando para o mundo seus corpos esbeltos, ressaltados pelas técnicas avançadíssimas da fotografia e dos aplicativos de edição. Em praticamente nenhum desses tutoriais, a foto de uma mulher gorda.


Nesses tutoriais também não aprendemos como é viajar e quase morrer de vergonha de tirar uma foto de um corpo inteiro naquele lugar bonito. Não ensina como lidar com anos de massacre da nossa autoimagem, com nossa autoestima destruída pela repressão de não estar no “padrão”. Com isso, voltamos, por vezes, frustradas e com menos fotos na mala do que gostaríamos.


Falar disso não é estereotipar o comportamento da mulher gorda. É falar que ele existe e que a padronização nos machuca também nesse aspecto. E haja trabalho para se livrar do estigma do “tão bonita de rosto, se emagrecesse um pouco ficaria ótima”.


Levei anos e anos para conseguir me deixar fotografar inteira. Conheço outras tantas mulheres que passaram (e outras tantas que, infelizmente, ainda passarão) pelo mesmo processo. E só consegui essa, para mim, proeza ao conhecer outras mulheres que já tinham dado esse passo: Cíntia Lira, Jéssica Balbino, Tess Holliday, Milena Paulina e outras tantas que se recusaram a continuar tirando só foto de rosto e mostram como o corpo gordo é fotografável. Digno de registro em qualquer ponto turístico, e também dentro de casa, no caminho pro trabalho ou para a escola. Nosso corpo merece ser mostrado.


O caminho não é dos mais fáceis. Se desconstruir é um processo lento. E é difícil deixar de acreditar em tudo que nos disseram uma vida inteira. Mas é preciso entender que, para trilhar esse caminho de um reconhecimento visual, é preciso primeiro afastar aquilo que atravanca o caminho do autoamor. É preciso se desintoxicar daqueles perfis que vendem a magreza como ideal de vida, que vendem a imagem magra com o selo de perfeição. Somos diversas e diversos serão nossos corpos. E como diz Naomi Wolf, os padrões servem apenas para diminuir as mulheres, para fazê-las acreditar que são menos do que são.


É preciso se nutrir da imagem de mulheres reais, que representem melhor o que somos, que têm corpos semelhantes aos nossos, que ignoram o tal do padrão e mostram como é possível romper a barreira do medo de expor o corpo como bem entendermos ou quisermos. É preciso nos espelharmos em perfis de mulheres como nós, gordas, viajantes, em desconstrução. E nenhuma gorda de soltar a mão da outra. É preciso fazermos transbordar nossos perfis de todos os jeitos que conseguirmos. É preciso fazermos com que percebam que nosso corpo também existe e que nesta nova revolução, passará a ser padrão. Pelo menos o nosso.


Então, que tal na próxima viagem botar o corpão todo para jogo, se reconhecer como se é e esbanjar a sua beleza nos cliques? Não há receita, não há tutorial de como romper essa barreira, mas te dou um spoiler: é gratificante


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