Saúde não é questão de peso

Atualizado: 24 de Jul de 2019

Especialistas afirmam que estar acima do peso não significa ter saúde ruim.

Jessamyn Stanley é professora de yoga e defensora do movimento body positive (Foto: Lauren Perlstein)

Padrões de beleza e comportamento são impostos diariamente às mulheres e não é de hoje que essas exigências são feitas. No Renascimento, por exemplo, mulheres com seios, coxas e barriga avantajadas eram apontadas como as mais belas, e serviam como musas para pintores e escultores. As que fugiam desse padrão, entretanto, eram consideradas desnutridas ou doentes. Atualmente, ser magro, diferentemente de décadas atrás, é um dos elementos do conjunto chamado beleza. Mas o desespero com o ponteiro da balança muitas vezes desconsidera a preocupação com a saúde.


A busca pela perfeição do corpo pode levar a obsessão, o que faz com que o indivíduo tome atitudes extremas. Luíza*, mede 1,64 e chegou a pesar 42 kg aos 21 anos. Ela afirma que sua paixão pela moda a fez entrar em um mundo de dietas e exercícios em busca do corpo magro e ideal, mas o peso baixo resultou em anorexia. “Eu não conseguia perceber o mal que estava me fazendo, até que comecei a sentir muita dor no peito e fraqueza nos ossos”, relata. Segundo a psicóloga especialista em realizar avaliações em candidatos a cirurgias bariátricas, Andreza Sorrentino, os padrões estéticos divulgados pela mídia e muitos outros fatores culturais podem exercer uma influência negativa e criar na pessoa uma expectativa irracional de se obter um corpo perfeito. Com isso, para alcançar este ideal de perfeição, há quem faça de tudo para emagrecer e, na maioria dos métodos e técnicas almejadas, não se obtêm sucesso. “Por não atender esses padrões, a pessoa passa a ser seu próprio torturador. Logo, o processo de aceitação precisa ser arduamente trabalhado, desconstruindo esses padrões estabelecidos pela sociedade e ampliando sua percepção para que ela reconheça que o belo ultrapassa o que é utilizado como um modelo de referência”, destaca.


Estar ou ser magra não está associado a qualidade de vida. A endocrinologista especialista em diabetes e emagrecimento, Ana Rachel, afirma que o estereótipo do gordo como sinônimo de desleixo deve ser deixado de lado. “Hoje existem vários estudos, principalmente sobre hormônios, que influenciam no entendimento do metabolismo de cada um, então não dá para generalizar”, pontua. Ela conta que já teve pacientes com excesso de peso que não tinham nenhuma outra doença associada à obesidade e com composição corporal de muita massa magra.


Gorda e saudável

Ilustração 'How to love myself' por Sehee Chae

Ao contrário do que muitos pensam, estar acima do peso não significa ter uma saúde ruim. Os padrões de beleza exigidos pela sociedade são, inclusive, tema de pesquisas em comunicação, filosofia, sociologia e antropologia. A doutora em comunicação, Lúcia Santaella, enfatiza, em um de seus livros, que a cultura tende a ser padronizada. Isso envolve a repetição de comportamentos similares aprovados pelo grupo, de modo que contenha uma forma e estrutura reconhecível.


Mas quem foge da beleza padrão, às vezes é excluído de grupos sociais, recebem ofensas ou são constantemente criticados. Nathália Fraga, 20 anos, atualmente pesa 115 kg e se diz satisfeita com o corpo. Em apenas dois anos, engordou 28kg, e foi uma “transição dolorosa”, pois segundo ela o aumento de peso fez com que as pessoas começassem a excluí-la e tratá-la de maneira diferente. Olhares incomodados começaram a ser frequentes e muitas opiniões sobre seu corpo disfarçadas de receio com a saúde eram recorrentes. “O argumento de preocupação com a saúde é o mais usado para começar o discurso de ódio contra o corpo gordo”, relata.


A questão é que, apesar de estar acima do peso, Nathália faz exames anualmente e eles nunca apontaram nenhum problema de saúde. Isso ocorre, pois ao contrário do que muitos imaginam, ela mantém uma alimentação equilibrada que inclui frutas e verduras e não apenas fast food ou comidas industrializadas. “As pessoas não acreditam que podemos ter nossos exames em ordem, nosso corpo funcionando corretamente mesmo estando acima do peso”, desabafa.


De modo geral, tanto pessoas magras quanto gordas precisam ter hábitos saudáveis de alimentação, praticar exercícios físicos, evitar álcool, cigarro e estresse, além de manter a mente saudável. A nutricionista Jacira Machado afirma ainda que é tudo parte de como o indivíduo leva a vida, e recomenda: “É essencial saber se adaptar às situações e ter prazer de viver”, conclui.


*nome fictício


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