Megarrromântico: clichês e estereótipos da comédia romântica

Atualizado: Ago 3

Na última quinta-feira (28) estreou mais um filme novo na Netflix com uma mulher gorda. Megarrromântico (ou Isn’t it Romantic) conta a história de Natalie (Rebel Wilson), uma arquiteta frustrada com o trabalho, a vida amorosa (ou a falta dela) e que se vê como um ser invisível na sociedade. O filme tem como premissa fazer uma sátira dos filmes de comédia romântica.

O longa começa te situando acerca dos sentimentos da protagonista. Em sua infância, Natalie tinha para si filmes como Pretty Woman algo real e possível de acontecer. Porém, sua mãe a reprimiu e explicou que “isso não acontece com garotas como nós”. 25 anos depois conhecemos a versão adulta da personagem que vive em um apartamento simples, em um bairro popular e precário e que não tem nenhum reconhecimento no trabalho. Além disso, ela se sente invisível para os homens padrões (que fique claro essa parte) e incapaz de ser bem-sucedida.


É importante ressaltar essa questão: Natalie, assim como muitas de nós que não se encaixam nos padrões, fica ansiando que o homem padrão (branco, alto, malhado) finalmente a enxergue. Assim, ela se fecha para todas as possibilidades que não se enquadre nessa categoria, se frustra e, consequentemente, sente que não é merecedora ou boa o suficiente. Quantas de nós, já com a autoestima baixa, idealizamos que um cara desses finalmente enxergaria a beleza em nós e descobriria a pessoa incrível que somos? Quantas vezes tomamos como objetivo os filmes de comédia romântica? É exatamente nessa ferida que o filme toca.

Após conhecermos um pouco da vida e personalidade de Natalie, ela sofre um assalto, bate a cabeça (sim, de novo essa premissa) e acorda no mundo da comédia romântica para maiores de 13 anos. Ou seja, não há palavrões e não há sexo. Esse “universo paralelo” consiste apenas em machismo, clichês e estereótipos. Tentando descobrir como sair desse pesadelo, ela chega à conclusão que precisa fazer um homem se apaixonar por ela.

Com o decorrer da história, vai ficando cada vez mais clara a mensagem que o filme quer passar: não é sobre romantizar as coisas, mas estar aberta às possibilidades. Desde pequenas somos ensinadas a almejar um conto de fadas e cobiçar os homens padrões. A falta de interesse deles logo indica (na nossa cabeça) que não somos boas ou bonitas o suficiente. Toda nossa autoestima e abertura para conhecer de fato as pessoas fica estremecida com a frustração dessa irrealidade. Acreditamos firmemente que o amor é tudo na vida, que precisamos encontrar alguém que nos ame e só assim seremos felizes.


É justamente contra isso que o filme vai. Antes de se permitir encontrar alguém, antes de esperar, cobrar o amor de alguém, nós precisamos nos amar primeiro. Não precisamos ficar com receio de notar nossas próprias qualidades, podemos sim nos enxergar como uma mulher incrível. O mundo nos vê como nós nos vemos. Não dá para se achar ou se sentir uma pessoa com mil e um defeitos e nenhuma qualidade e esperar que o mundo te prove o contrário. Você tem que fazê-lo. Você tem que se conhecer, ter um olhar sincero e carinhoso consigo mesma.


Quanto ao roteiro, é bem inteligente a forma como fizeram uma comédia romântica criticando comédias românticas. Até porque em momento algum o filme se afirma como apenas comédia ou que não seguiria tal gênero. Uma curiosidade é que, enquanto está nesse universo, Natalie acaba usando roupas icônicas do filme Pretty Woman, justamente para reafirmar o clichê do gênero. Além disso, algumas das roupas usadas pela protagonista faz parte da linha plus size da própria atriz, Rebel Wilson x Angels.




Sobre Rebel Wilson como protagonista, confesso que fiquei com receio de sua atuação visto que suas participações nos filmes sempre estão acompanhadas de piadas com o próprio corpo gordo. Em Megarrromântico, há umas três piadas sutis quanto a isso, mas sem toda a degradação que às vezes acontece. O filme até que é bom para se fazer uma reflexão sobre a idealização do amor, mas não é tudo isso. Por vezes você se pega distraído mexendo no celular durante os números musicais, por exemplo.


A impressão que tive é o papel principal poderia muito bem ser feito por uma atriz magra e, por isso, fico contente que uma mulher gorda o tenha feito. O cinema, a televisão e os livros precisam trazer a questão do corpo gordo, mas além disso, precisa trazer a mulher gorda como protagonista sem ter seu peso como ponto principal do roteiro. Queremos representatividade não apenas sobre o fator balança, queremos normalização do nosso corpo, da nossa aparência. Queremos ser opção de escolha e não cota.


Polêmica

Em entrevista para o programa de TV The Ellen DeGeneres Show, Rebel Wilson divulgou o filme novo e afirmou que tem "orgulho de ser a primeira garota plus size a ser estrela de uma comédia romântica". Logo a atriz foi acusada de apagar o protagonismo de atrizes gordas anteriores a ela no cinema. No twitter, algumas pessoas até lembraram de filmes como Um Salão do Barulho, Jogada Certa e As Férias da Minha Vida com Queen Latifah; e Garotas Formosas com e Mo’Nique.

Rebel Wilson até tentou se defender afirmando que tais filmes eram questionáveis quanto às atrizes serem consideradas plus size quando filmavam os filmes e à categorização do filme. Após o comentário, a própria Mo’Nique respondeu: “Ei, minha doce irmã. Por favor, não permita que esse mercado apague o nosso talento com isso de dar áreas cinzentas e detalhes técnicos. Tire um momento e conheça a história. Não faça parte do apagamento. Desejo-lhe o melhor”.



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