Larissa Siriani fala sobre autoestima e representatividade

Atualizado: 22 de Jul de 2019



A Hilda entrevista a escritora paulistana de 25 anos, Larissa Siriani. Ela é formada em cinema, sonha em viajar o mundo e encabeçar a lista de best-sellers. Sua obra Amor plus size conta a história de Maitê Passos, uma adolescente de 17 anos que pesa mais de 100kg e tem uma longa jornada na busca pela autoaceitação. Além de se apaixonar pela personagem principal, é provável que você devore o livro em pouquíssimos dias.


H: Como surgiu a ideia do livro?

Larissa: Veio bem do nada, na verdade, numa noite despretensiosa na casa de uma amiga. Eu tinha acabado de comer horrores e estava me sentindo meio mal por isso, e então comecei a me sentir mal por estar me sentindo mal, sabe? Então comecei a pensar em como a minha vida tinha sido uma sequência disso, de me sentir mal por quem eu sou e pelo modo como levo a minha vida só por ser gorda, e em como poderia ter sido diferente se eu tivesse tido alguém para me dizer que estava tudo bem. Daí para imaginar a Maitê foi um pulinho.


H: Qual a importância do tema para as mulheres que não se encaixam nos padrões exigidos?

Larissa: É essencial, eu diria. Como uma mulher gorda, você não se enxerga em basicamente nenhum lugar; não se vê atrizes gordas na TV e no cinema (exceto em papéis menores e geralmente cômicos), não existem roupas do seu tamanho na maior parte das lojas, não há grande foco na moda plus size. É como se você não existisse. Ter um livro falando sobre isso é como ter um espelho: você se enxerga refletida em algum lugar e entende que você pertence a um grupo (e grande) que pensa e sente como você. Isso é formação de caráter.


H: Como você se sente com relação ao seu corpo?

Larissa: Hoje eu tenho uma relação um pouco mais saudável com ele. Passei muito tempo me rejeitando e cheguei a adoecer por isso. A vida toda, descontei minhas frustrações de todas as maneiras possíveis no meu peso, tanto comendo em excesso quanto fazendo loucuras para emagrecer. Hoje estou encontrando um balanço e me amando mais a cada dia.


H: O que acha do espaço para conteúdo do segmento plus size? Há espaço, público, boa reputação?

Larissa: A internet hoje abriu mais espaço para falarmos sobre isso, mas ainda é como gritar numa sala lotada de gente falando ao mesmo tempo, porque a impressão que tenho às vezes é que ninguém nos escuta. Muita gente ainda confunde a discussão da representatividade e do amor próprio com uma espécie de “batalhão pró-obesidade”, como se lutar por respeito fosse o mesmo que pedir para que as pessoas fiquem doentes. Falta que as pessoas tenham um mínimo de empatia para entender que o que a gente quer é nada mais que ter nosso direito de existir respeitado, como qualquer outra pessoa.


H: Você se sente representada pelas mulheres que apararem nesse segmento?

Larissa: Poucas vezes, porque na verdade há muito pouca representação. Hoje eu já conheço algumas blogueiras e modelos plus size que admiro muito e em quem me inspiro, mas ainda é muito segmentado. Você não as vê em revistas, da mesma maneira como não vê uma garota acima do peso protagonizando a novela das oito. Enquanto formos tratadas como nicho, jamais seremos vistas como parte de algo maior. Representatividade para mim significa estar em todos os lugares e não ter que passar pelo questionamento de “está ali porque é X”. Não quero ser a amiga gorda, a menina que vai ser transformada, a gordinha engraçada – isso não me representa. Quero que me mostrem que eu posso ser qualquer uma. Isso é representatividade. É simplesmente estar.


H: Como você se sente com a palavra “gorda”? Sempre teve essa relação?

Larissa: Hoje eu encaro como só mais uma das palavras que me definem. É uma lição curiosa que aprendi com Harry Potter, na verdade: ter medo de um nome só dá poder a ele. Enquanto eu recusava a usar “gorda” como parte do meu vocabulário, eu dava à palavra e às pessoas o poder de me ferirem. Ninguém se ofende por ser chamada de “loira”, por exemplo. Por que deveria me ofender por ser gorda? Passei muitos anos para entender isso, e todo dia preciso lutar comigo mesma para não recusar a palavra como o adjetivo que ela é, mas estamos chegando lá.


H: Toda mulher passa por um processo de autoaceitação, gostaria de saber: como ocorreu o seu processo?

Larissa: Por inúmeros motivos, eu realmente acreditava que ser magra era a receita da felicidade, além da beleza. Atingi meu limite quando passei por um processo estético chamado mesoterapia, que basicamente consiste em injetar enzimas diretamente na barriga para perder gordura localizada, e fiquei fisicamente machucada. Foi a coisa mais humilhante e dolorida a que já me submeti, e quando saí da última sessão, jurei a mim mesma que nunca mais ia passar por aquilo de novo. Depois daquele dia, comecei a tentar me reconstruir. Tentei buscar motivos para gostar de mim de novo, geralmente focando em coisas que eu achava que podiam me embelezar, como fazer as unhas e investir na maquiagem. E fotos, muitas fotos. Comecei a me sentir mais fotogênica, mais bonita, e inventei um mantra diário de sempre ter algo de bom para dizer sobre mim mesma. Foi complicado, porque quando você não é aquele padrão-Globo de beleza, você é inundada todos os dias com imagens do que é belo e inevitavelmente se compara, mas eu fiz um esforço e continuei tentando. Estou nessa até hoje.


H: Qual conselho você daria para uma adolescente que está satisfeita com o corpo, mas críticas constantes a faz repensar isso?

Larissa: Não deixe que ninguém te diga que você é menos do que você é. Quando alguém a fizer questionar o seu valor e a sua beleza, só lembre de se olhar no espelho e repetir “eu sou linda”. Lembre-se que você não precisa se diminuir para entrar no padrão: ele é que precisa aumentar para abrigar uma beleza como a sua! Ame-se.


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