Vamos falar sobre gordofobia médica?

Atualizado: Jul 12


Foto por Caroline Tedesco

Gravidez: um estado pelo qual tantas mulheres desejam passar. O momento em que muitas dizem conhecer o verdadeiro significado do amor. É inexplicável, extraordinário, único! E, mesmo com todo o significado e magia que uma gestação carrega, é muito comum relatos de mulheres gordas que, quando grávidas, foram negligenciadas por alguns médicos. Elas descrevem a falta de amparo, discursos intimidadores, brincadeiras em tons jocosos, ofensas verbais, entre tantos outros casos de gordofobia médica.


Jeniffer de Oliveira, de 25 anos, conta que, durante sua gestação, foi pressionada a tomar decisões que não se baseavam em fatos científicos, mas sim no preconceito do obstetra que a assistia. “No dia do parto, meu médico teve um imprevisto e fui atendida pelo obstetra de plantão. Esse cara disse que minha vagina era muito gorda para um bebê e que ele se perderia na hora de sair”, relata.


Esse não é um caso exclusivo. Tereza Wilhelm, de 33 anos, passou pelo mesmo descaso no nascimento de sua segunda filha. Durante sua gravidez, chegou a pesar 117 kg e, no dia do parto, a médica que foi fazer o exame de toque disse que a razão por ela estar gorda é porque não podia ver uma panela destampada. A quantidade de casos do tipo só mostra o quanto a gordofobia está presente e impede que mulheres gordas possam desfrutar desse período tão especial como qualquer outra mulher.


Com tantos casos de negligência e de preconceito, o medo acompanha a emoção de se descobrir uma gravidez. Paty Magalhães é maquiadora e está grávida de 37 semanas. Ela conta que houve preocupação com relação ao seu peso quando descobriu a gravidez: “Depois que passou o efeito da surpresa, fiquei tomada de preocupação. Fui pesquisar sobre mulheres gordas e gravidez e só encontrei desgraça. Isso fez com que eu ficasse com ainda mais medo e às vezes até culpada por ser uma mulher gorda grávida”.


Quanto à busca de um obstetra, Paty fala da dificuldade em encontrar um especialista pela pouca opção ofertada pelo convênio. Além das poucas opções, ela sofreu gordofobia na primeira profissional com a qual consultou. “Desde a primeira consulta ela me tratava como uma bomba relógio e era extremamente grossa comigo. Ela simplesmente não acreditava no fato de eu não ter diabetes, colesterol alto ou pressão alta, afinal é tudo que as pessoas tacham e esperam de uma pessoa gorda”, desabafa. Ela conta também, que quando entregou seu exame de sangue, a médica viu que estava tudo bem e, ao invés de passar tranquilidade, apenas a amedrontou ainda mais. “Eu estava com medo e insegura e ela só fazia isso piorar. Um dia chorei após a consulta de tão mal que ela me tratou e foi quando decidi mudar de médica”, explica.


Foi com a segunda médica que Paty teve uma experiência médica digna. “Com a outra médica foi uma história completamente diferente e feliz. É com quem estou até agora, tem sido ótima comigo e nunca mencionou meu peso como um problema. Aliás, a única vez que falou sobre peso foi na primeira consulta quando disse quanto eu deveria engordar por mês e só. Ela me trata como uma paciente normal, até porque minha gravidez não é de risco, e me tranquiliza quando eu falo sobre ser gorda e ter medo”.


Assim como Paty, outras muitas mulheres gordas passam por algum tipo de experiência ruim quanto à consulta médica, seja pelo atendimento gordofóbico ou pela falta de equipamentos que suportem o peso. O ginecologista e obstetra, Edgar Bandeira, explica que o sobrepeso pode ser um fato para risco em uma gestação, mas o risco não é algo exclusivo dessa característica. “É preciso um monitoramento e acompanhamento mais frequente. Porém, não é motivo para falta de ética e profissionalismo, a mulher gorda merece o mesmo tratamento de qualquer outra”, destaca.


Existem sim cuidados a serem tomados quanto à gravidez de mulheres gordas. Entretanto, ainda que haja certa preocupação, elas não devem ser discriminadas e nem desrespeitadas. Uma mulher gorda não se resume ao número na balança e, ainda que esse seja um fator de risco em determinado caso, o mínimo que ela merece ainda é o respeito. É preciso ter o acompanhamento mais adequado, assim como no caso de qualquer outra mulher, com uma uma abordagem receptiva e não preconceituosa. Afinal, a gravidez é um momento que deve ser único e extraordinário para a mulher, independente do seu peso.


The Honest Body Project

Criado pela fotógrafa americana Natalie McCain, o The Honest Body Project (em tradução livre, “o projeto do corpo honesto”) foi criado para ajudar mulheres a aprender a amar seus corpos e a si mesmas. Ele é composto por fotografias e relatos de mulheres incríveis acerca da maternidade. O projeto mostra a alegria, a beleza, a imperfeição e o amor de cada uma. Segundo a artista, “como mulheres, somos ensinadas a nos julgar mais do que qualquer um julgaria”. The Honest Body Project busca dar voz a essas mulheres para compartilharem suas experiências quanto às mudanças do corpo após a gravidez.


Com a iniciativa, Natalie quer ajudar a próxima geração de mulheres a ter uma imagem saudável de seus corpos. “Eu quero empoderar as mães de todos os lugares a usar com orgulho seus corpos pós-parto”, explica. O projeto nos apresenta mulheres de todos os biotipos, com distintos efeitos da gravidez e muita beleza na diversidade. Afinal, todo corpo merece respeito, todo corpo tem sua história, todo corpo exige respeito.


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