Gabriela Caroli e a moda plus size

Atualizado: 22 de Jul de 2019


Aos 33 anos, Gabriela Caroli é o rosto familiar estampado em propagandas de várias marcas e a presença gorda nas passarelas. Ela é formada em Gestão Ambiental, era professora de meio ambiente e, durante o dia, cuidava da área financeira da editora de seu pai. Hoje, a paulistana é uma das principais modelos plus size da atualidade. Em entrevista exclusiva, ela fala sobre moda, início de carreira, mercado, autoestima, empoderamento e representatividade.




H: Como e quando você se tornou modelo plus size?

Gabriela: Foi aos meus 30 anos, eu estava no Tabuleiro do Acarajé, por coincidência, a estilista da Julia Plus também e foi ela quem me descobriu. Ela não falou comigo na hora, por receio de me abordar perguntando se eu queria ser modelo plus size e eu falar que não, porque não gostava de ser gorda. Então, primeiro ela sondou quem eu era, encontrou meu Facebook e aí sim conversou comigo. Eu fui conhecer a loja, as peças e deu tudo certo. Eu fiquei mais de um ano sem agência, trabalhando sozinha com diversas marcas e maioria delas eu tenho comigo até hoje. Eu nunca tinha modelado, nunca havia pensado em ser modelo e isso mudou completamente minha vida. A sensação que eu tenho é que, desde desse dia em que fiz meu primeiro trabalho, eu me encontrei.


H: Ser modelo influenciou na sua relação com o próprio corpo?

Gabriela: Não. As pessoas acham que virando modelo elas vão passar a se amar, se aceitar. A realidade é que você já tem que estar se amando. Para você ser uma boa modelo e passar essa verdade para as pessoas, você tem que ter passado por esse processo e estar bem segura de si. Até porque a gente vê nossa imagem de todos os ângulos em que não vemos no espelho e é um baque. Se você não estiver já bem segura de você, é complicado e não é um caminho para levantar a autoestima.


Foto: Johnny Moraes

H: E nessa época, qual era sua relação com o corpo?

Gabriela: Eu não me achava feia e nem nada disso, eu estava ok comigo, mas nunca pensei em ser modelo. Até porque quando eu era adolescente achava a moda muito fútil. Só que quando você é modelo plus size, você não está utilizando só aquele glamour da parte fútil da moda, você está empoderando mulheres, libertando mulheres. Então eu dei um significado ao que eu faço, foi muito verdadeiro para mim.


H: Você sentiu um certo estranhamento de amigos ou familiares quando se tornou modelo?

Gabriela: De alguns sim, porque para algumas pessoas, nós gordas temos a obrigação de nos odiar. A gente tem a obrigação de ser infeliz. Então quando você está lá feliz, utilizando a sua imagem e o seu tamanho grande para ganhar dinheiro, é uma afronta. Eu via o incomodo em algumas poucas pessoas que logo foram se acostumando, mas a maioria dos meus familiares e amigos ficaram felizes por mim.


H: E como foi seu processo de amor ao próprio corpo?

Gabriela: Eu tinha 26 anos e passei um tempo separada do meu marido. Eu estava me sentindo horrível, sozinha, com filho pequeno e mal tinha roupa, usava o que cabia e só. Então comecei a procurar blogs para procurar por roupas maiores. Nisso, eu encontrei alguns internacionais e aquilo foi como se uma ficha caísse na minha cabeça: por que eu preciso ser magra para ser feliz? Para quê? Para quem? Esses questionamentos entraram na minha cabeça e é como se tivessem aberto uma portinha que me libertou. Nessa mesma fase, eu comecei a fazer dança do ventre e percebi que todas as meninas ficavam lindas fazendo. Todas eram diferentes – magra, gorda, nova, idosa, e todas eram lindas dançando. Foi um processo bem importante para mim, juntar a parte da dança com a representatividade por meio dos blogs e ver que eu poderia me vestir do jeito que eu gosto.


H: Nesse ramo, qual a maior dificuldade atualmente?

Gabriela: A gente não tem estabilidade. Tenho muita sorte por, desde que comecei, trabalhar muito. Eu sempre me conflito pensando se vou continuar trabalhando como no começo e as coisas vem acontecendo de forma boa. Instabilidade é o que preocupa e eu vejo que a maioria das modelos têm um segundo emprego. Atualmente são poucas as modelos que vivem apenas disso e eu tenho muita sorte por fazer parte dessa parcela. Quando eu comecei, pensei que para estar fazendo isso eu teria que me profissionalizar para me manter. Então fiz curso e mais uma série de coisas que para melhorar e que modelar não fosse algo passageiro.


H: No momento alto de influenciadoras digitais, você como modelo profissional sente que está perdendo espaço para elas?

Gabriela: Não mesmo, tem espaço para todas. As influenciadoras digitais trazem a questão de alcance e visibilidade. Eu sou profissional e, quando as marcas querem uma modelo profissional fashion, elas vêm até mim. Cada uma tem seu papel e todos são muito importantes.


Gabriela Caroli para Vintage & Cats

H: Você sente pressão, mesmo que na categoria plus size, para emagrecer ou engordar?

Gabriela: Não sinto. Eu sou manequim 48/50 e meu busto é tamanho 54. Quando eu comecei, eu era 46 e nessa época as pessoas falavam para eu engordar. Eu não engordei de propósito, na verdade quando eu estava mais magra é porque eu estava fazendo uma dieta maluca, então quando eu parei, voltei para o meu tamanho e peso normais. Eu consigo trabalhar bastante, porque estou no mercado das curvy (no tamanho limite) e das plus size (no tamanho mínimo). Eu particularmente não tenho sentido essa pressão, mas sei que o mercado hoje tem favorecido meninas menores, até porque a maioria das marcas não fazem até o tamanho 60, fazem até o 54. Então não dá para chamar uma modelo maior, se não tem produto para atender esse público. Por isso, eu acho que as marcas deveriam ampliar a grade delas.


H: Quais dicas você daria para alguém que queira começar nesse meio?

Gabriela: A pessoa tem que ter noção de algumas coisas, se informar sobre a profissão, porque a mulher nesse meio não vai chegar no job e ter um dia de princesa, de glamour. O trabalho é ficar em pé, de salto, trocar de roupa umas 50 vezes, trocar o acessório a cada troca de roupa... É um trabalho pesadíssimo, não é para qualquer pessoa. E você tem que ter ciência de que para ter sucesso e reconhecimento, você precisa trabalhar duro. Ser pontual, ser uma boa pessoa, não ter medo de ralar bastante. Se a pessoa se informou e tem certeza de que esse é o caminho que ela quer seguir, então ela tem que procurar um fotógrafo profissional e fazer boas fotos. Com o composite na mão, você tem dois caminhos: procurar uma agência e ela vai trabalhar com você (uma agência boa, que não te cobre taxas); ou começar a frequentar os eventos de moda especializada. No início, eu consegui muito trabalho, porque ia no Pop Plus e no evento do Blog Mulherão e passava de marca em marca e me apresentado. “Oi, prazer, meu nome é Gabriela, sou uma modelo nova no mercado e só vim te conhecer”. E, assim, me vinha trabalho. Caso opte pela agência, é importante também estar atenta à idoneidade dela, seja grande ou pequena. Infelizmente é muito comum casos de agências que te procuram para te vender book ou cobrar taxa de agenciamento, já é óbvio que não se trata de uma agência idônea e recomendo fortemente que não sejam feitas parcerias com esse tipo de empresa.


H: Qual o maior mito quanto à essa profissão?

Gabriela: As pessoas acreditam que eu estou rica. Eu adoraria estar, claro. Algumas fazem umas contas de que eu cobro cinco mil por job, trabalho todo dia e tiro 100 mil por mês. Não mesmo! Cada trabalho tem seu valor, eu não trabalho todo dia e eu batalho muito para ter minhas coisas. Então é trabalho duro e disciplina financeira o nome disso.


H: Você já fez algum trabalho para marcas não especializadas em que sentiu ser cota e não inclusão?

Gabriela: Sim, em alguns desfiles que eu fiz. No começo, existia uma estranheza do pessoal da produção e um questionamento da razão de ter uma gorda ali. Quando fui desfilar novamente, eu senti que já me tratavam de um jeito mais casual, estavam se acostumando com a minha presença. Hoje em dia eles me adoram e, se não participo, perguntam da Gabriela, querem saber aonde estão as gordas na passarela. Nós tivemos que cavar o nosso espaço e no começo era esquisitíssimo, porque quando se fala do fashion, da passarela, de eventos grandes, eles estão acostumados com modelos bem magras.


Gabriela Caroli para Vintage & Cats

H: Quanto à representatividade, acha que estão pensando na mulher gorda?

Gabriela: Acho que estamos caminhando. Vai ser o ideal quando não for mais um espanto ver uma mulher gorda em uma propaganda. Por exemplo, fui fazer um desfile e, na hora em que entrei, fui ovacionada, todos estavam aplaudindo. Eu fico lisonjeada, mas isso mostra o quanto ainda é uma surpresa ver uma mulher gorda com certeza de si, com atitude e empoderada fazendo o que gosta. Na televisão, a gente tem algumas representatividades, porém ainda é recorrente colocar a mulher gorda como estereótipo, para fazer piada ou com tristeza por ser como ela é. Eu sinto falta de protagonistas gordas, de filmes com gordas que sejam mais delicados e que não abordem necessariamente a questão do corpo gordo.


H: Quais conselhos você daria para as mulheres que ainda estão em busca do amor ao corpo e para as marcas não especializadas em moda plus size?

Gabriela: Para as mulheres, eu aconselho a se questionarem. Aquela ficha que caiu para mim, pode cair para elas. Se pergunte: para quem eu preciso estar magra? Por que? E por que minha felicidade tem que estar relacionada a magreza? Se questionar é o primeiro passo.

Para as marcas, eu digo para estudarem o mercado, estudarem conceitos e procurar conhecer as pessoas que estão vinculando às suas marcas. Você quer ampliar sua marca para o plus size, amplia com consciência. Não vai apenas até o 50, não coloca uma moça tamanho 42 para representar mulheres maiores, porque chega a ser ofensivo. Representa com carinho suas clientes, ofereça o produto com consciência.

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