Fluvia Lacerda: de pioneira a referência de moda plus size no Brasil

Atualizado: Ago 13


Fluvia Lacerda para Revista Hilda

Quando se fala no nome Fluvia Lacerda, dificilmente alguém não vai saber sobre quem se está falando. A carioca, que cresceu no Norte do país, teve uma infância tranquila e longe da correria da cidade grande. Terminou sua adolescência em Nova York, onde foi descoberta como modelo. Há 17 anos no mercado, Fluvia se estabeleceu como referência de moda plus size no Brasil.


Sempre teve uma boa relação com seu corpo, independente de seu manequim. Afinal, não havia razão para não ter. Mas a carreira na moda nunca esteve em seus planos. Ela tinha noções de estéticas específicas quando mais nova, gostava do assunto, mas nunca imaginou trabalhar com isso. “Meu início nesse mercado foi em 2003, quando fui descoberta em NYC, então segui essa carreira viajando por diversas partes do mundo”, relata. Na época, a moda plus size internacional não era mais novidade, enquanto no Brasil nem se falava sobre. Tanto que sua família não entendia como era possível ser modelo gorda e nem fazia ideia do sucesso que ela já havia conquistado.


Fluvia relata que sua vida de modelo mudou sua forma de olhar para si mesma, no aspecto estético, mas não no emocional. “Modelar requer uma noção ampla sobre nosso corpo, mas nunca foi uma terapia para mim. Nunca usei minha carreira como sistema de validação interna ou externa para quem sou”, afirma.


Fluvia Lacerda para Revista Hilda

Em 2007, trouxe sua carreira para o Brasil ao mesmo tempo em que ouvia que “modelo tem que ser magra” e que “aqui isso não existe e nunca vingará”. Fluvia resolveu, então, pagar uma empresa de marketing para realizar um levantamento sobre marcas que faziam roupas para mulheres gordas e eles encontram menos de 10 lojas que até faziam, mas não divulgavam. Ela também não conseguia encontrar assessoria de imprensa para si, visto que não havia profissionais que conhecessem seu meio de atuação: o plus size. Assim, Fluvia não conseguia atuar como modelo, pois para modelar é preciso que haja marca e aqui sequer havia essa indústria. “Foi um trabalho de construção longo e complicado”, relembra.


Com a ascensão de Fluvia Lacerda como referência no meio da moda, vieram também questionamentos sobre seu investimento árduo em gerar publicidade para a necessidade de uma indústria plus size no meio da moda. “Eu me empenhava para fazer o mercado crescer, para que houvesse mais oportunidades e isso incomodava algumas pessoas. Tudo o que eu queria era ajudar as mulheres do meu país a terem as mesmas escolhas na hora de se vestir assim como eu tinha lá fora”, desabafa.


Sobre a evolução da moda plus size no Brasil, Fluvia afirma que sua base foi construída de forma desesperada. “O alicerce foi mal feito, construído em meio a tantas pessoas sedentas por dinheiro e sem conhecimento consistente algum sobre essa indústria”, explica. Isso é o que vemos com facilidade no mercado: marcas que não fazem de fato tamanhos grandes e querem lucrar com a inclusão e modelos que não são gordas e se dobram em frente às câmeras para parecerem fora de padrão. Assim, ela acredita que “é preciso rever muita coisa, falar abertamente sobre tudo o que está errado. Sair do mastigar exaustivo sobre o que não funciona para, então, direcionar essa energia ao que pode se tornar uma nova realidade para mulheres gordas e para a indústria da moda”.


Fluvia Lacerda para Revista Hilda

Em 2017, a modelo lançou seu livro “Gorda Não é Palavrão”. O título veio fácil, pois era algo que sempre falava. “As pessoas diziam que eu trouxe o ‘plus size’ para o Brasil e eu achava aquilo cômico, pois percebia o quanto rejeitavam – e ainda rejeitam – o termo ‘gorda’, mas abraçavam o termo gringo ‘plus size’”, relembra. A partir do questionamento sobre por que ser chamada de magra era um elogio e de gorda era uma ofensa, Fluvia escreveu sobre seus conhecimentos e experiências. Em sua obra, ela encoraja mulheres a questionarem a falta de representatividade de tamanhos na moda e na mídia, a não se submeterem aos padrões impostos e, principalmente, a se amarem mais.


Foram anos se consolidando como uma das maiores modelos plus size brasileiras e como referência nacional com um portfólio grandioso e de muita representatividade: foi a primeira modelo plus size a estar em uma capa da revista Playboy; modelou para um editorial da Vogue Itália; estampou campanhas de grandes marcas fora do segmento (como Arezzo, P&G e Savage x Fenty); e foi uma das protagonistas do reality Beleza GG.


Com a evolução da moda plus size no Brasil, Fluvia também evoluiu como modelo. “Abandonei os trabalhos que não me estimulavam mais, abri mão de trabalhar para marcas que não fazem roupas para gordas de fato e me dou tempo para refletir sobre como navegar de forma verdadeira em meio à desordem que se tornou a indústria nacional”, avalia. Para ela, evoluir é um processo de constante autodescoberta.


Fluvia continua na batalha pela democratização do mercado de moda e se posiciona quando necessário. “Nunca fui ativista de subir no palco e ficar berrando sobre as coisas que estão erradas. Meu lema sempre foi sobre criar novas realidades e, para isso precisamos focar energias nesse movimento direcionado pra frente e não fixado no que já sabemos que deu errado”, explica.


Atualmente, a modelo tem adaptado seu trabalho para o novo normal que vivemos enquanto mostra um pouco da sua realidade pelas redes. Além de falar sobre questões do universo plus size, Fluvia também tem como pauta alimentação saudável (com uma família quase toda vegetariana e casada com um engenheiro agrônomo) e autismo de forma ampla e clara (por ter um filho dentro do espectro).

Fluvia Lacerda para Revista Hilda

Aos 39 anos, Fluvia percebe a vida de outra forma. Ela vive mais focada no presente e percebe que as coisas chegam de uma forma mais orgânica. Para o futuro, quer aprender muito mais e explorar lados do seu trabalho ainda inexplorados. “Hoje tenho mais controle da minha carreira e isso me libertou. Aprendi que quando nós dirigimos nossa própria trajetória, temos a chance de aprender muito mais sobre nós mesmos”, reflete.


A certeza que temos é que Fluvia Lacerda tem ainda mais sucesso para conquistar e que seu nome continuará como referência para todas as modelos meio. Seguiremos assistindo a sua luta por uma moda justa e com representatividade e por um mercado maior e mais profissional.


-

#fluvialacerda #modeloplussize #modaplussize #mercadoplussize




142 visualizações

QUER RECEBER NOSSA NEWSLETTER?

  • Black Instagram Icon
  • Black Facebook Icon

© 2019 por Revista Hilda.