Dumplin’: o acerto da Netflix e a representatividade da mulher gorda

Atualizado: 22 de Jul de 2019


Estreia hoje (8), na Netflix, o filme Dumplin’ – uma adaptação do livro homônimo de Julie Murphy. Escrito, adaptado, produzido e dirigido por mulheres, o longa conta a história de Willowdean Dickson (Danielle Macdonald), uma adolescente gorda filha de uma ex-miss organizadora do concurso de beleza da cidade, Rosie (Jennifer Aniston). Ao contrário da série repulsiva, Insatiable, ele realmente cumpre com a premissa de apresentar empoderamento e discutir a autoestima.


De cara, a trama nos introduz à Lucy (Hilliary Begley), tia de Willow. Gorda, vaidosa e confiante, ela praticamente criou a sobrinha enquanto Rosie se ocupava com os preparativos do Miss Flor do Texas. A história se passa seis meses após a morte de Lucy e coloca a autoconfiança de Will em jogo, pois apesar da constante ausência de sua mãe, ela encontrava força e segurança em sua tia. Ainda que se passe após seu falecimento, vemos Lucy em trechos do longa e em sentimentos da protagonista, como se ela fosse onipresente durante todo filme. São frases e flashs dela que se fazem necessário para Will e para nós.



“O mundo está cheio de pessoas que tentarão dizer quem você é, mas cabe a você decidir”.


A história dá bastante ênfase na frustração de Will por não conseguir ser como a mãe gostaria e não receber o olhar de admiração que ela pousa sobre as participantes do concurso. É quase como uma concorrência entre a filha e o concurso de beleza, um misto de ciúmes daquilo em que a mãe coloca tanto tempo e dedicação e tristeza da mãe não conseguir enxergar e ressaltar a beleza na própria filha. Com a organização do evento, conseguimos perceber a relação que Rosie tem com o concurso: ela constantemente relaciona magreza à beleza e ao sucesso, até assume que “it's harder for big girls”.


Ao mesmo tempo em que apresenta o relacionamento de mãe e filha, o filme nos mostra timidamente a relação de Will e seu crush Bo. Ele é pouco inserido na história, mas cativa rapidamente pelo jeito que olha e sorri para a protagonista. Daí surge a segunda falha na autoconfiança de Willowdean. Apesar de não ligar para as piadinhas que escuta a respeito de seu corpo, ela não consegue acreditar ou sequer entender como um cara como ele está interessado nela. Ela passa pelo questionamento e insegurança que todas nós já tivemos: o “é impossível que um cara como ele se apaixone por uma garota como eu (leia-se ‘gorda’) ”. Gosto de como relação deles é apresentada, pois não Bo como um salvador, o diferentão ou o cara que finalmente enxerga a garota gorda. O encantamento dele por ela ocorre naturalmente e justamente por ela ser como e quem é, tanto na personalidade quanto fisicamente.

Em tradução livre: "Para o inferno qualquer um que um dia te fez sentir menos do que é"

Em certo momento do filme, Willow decide participar do concurso de beleza a fim de protestar quanto ao padrão físico das meninas que concorrem. É aí que começamos a nos encantar e identificar com a “segunda protagonista”: Millie (Maddie Baillio). A outra garota gorda da história com personalidade totalmente oposta à Will. Ela é meio ingênua, boazinha demais e não quer se rebelar, mas ser incluída. A falta de vergonha de ser como é e de usar o que quiser é o que nos inspira e atiça o julgamento da própria Will. Percebemos então como às vezes queremos ser vistas além do nosso peso, mas julgamos outros por sua aparência também.


A partir de então e com novos acontecimentos, Willowdean começa a internalizar toda a pressão dos padrões de beleza e todo preconceito sofrido por ser gorda. A confiança vai dando adeus e a agonia de estar no corpo gordo dá voz. Nesse momento eu me vi e me despedacei junto a ela. O nó na garganta, a inconformidade por ser como é e a raiva do próprio corpo. É não se sentir capaz de conseguir algo e ter certeza de que não merece ser amada. É o momento em que tudo o que você gosta em você ou pensa sobre si dá lugar aos olhares tortos recebidos, às opiniões não solicitadas, aos comentários maldosos e à insistência da sociedade em odiar o nosso corpo. Trata-se de uma cena que parte a protagonista aos pedaços e te leva junto, mas é assim que o roteiro, logo em seguida, reergue ambas as partes.


Na minha opinião, Dumplin’ é o filme que Sierra Burgess é uma Loser não conseguiu ser. Ele traz o empoderamento da protagonista sem depender de homem algum, discute os padrões de beleza e mostra a pressão de uma mãe para o emagrecimento da filha por questões estéticas (algo muito comum e pouco representado). Para a mulher gorda, o filme traz muita identificação e acerta em cheio ao colocar Danielle Macdonald no papel principal. O exemplo da tia Lucy é inspirador e te faz refletir sobre aquela pessoa em nossa vida que nos fazer bem, nos dá confiança e nos ama como somos. Apesar de abordar muitas questões essenciais quanto à representatividade da mulher gorda, ele falha na profundidade. Senti muita falta de uma conversa sincera entre mãe e filha, o principal foco do filme. Em duas cenas específicas (no quarto de Willow e no camarim de Rosie) eu realmente me preparei para que ela acontecesse, mas simplesmente não veio. Acredito que antes de discutir as dificuldades de um relacionamento amoroso, por exemplo, é bom que se discuta a questão do preconceito dentro de casa. Esse, querendo ou não, é o que mais nos desestrutura e o mais árduo de mudar. Por isso, a falta de uma conversa honesta entre elas me deixou um vazio.



Menção honrosa ao livro


Seja parar ler antes ou depois de assistir ao filme, o livro deve ser lido. Assim como qualquer adaptação, encontramos muito mais profundidade e maior conexão com os pensamentos de Willow. Por exemplo, há muito mais conversa e interação entre ela e o Bo e mais ocasiões de atrito entre ela e a mãe. A obra também acrescenta pano na briga entre a protagonista e sua melhor amiga.


Para deixar o gostinho e inspirar vocês a lerem, selecionamos dois trechos do começo do livro que nos impactaram bastante:




“Porque a palavra gorda deixa as pessoas constrangidas. Mas, quando alguém me vê, a primeira coisa que nota é o meu corpo. E meu corpo é de uma gorda. Por exemplo, eu posso notar que algumas garotas têm peitos grandes, cabelos oleosos ou joelhos ossudos. São coisas que é permitido dizer sem rodeios. Mas a palavra gorda, que é a que melhor me descreve, deixa as pessoas desconfortáveis. Mas essa sou eu. Gorda. Não é nenhum palavrão. Não é nenhum insulto”.


“Eu perdi muito tempo na vida me preocupando com o que as pessoas diriam ou pensariam. E, às vezes, era em relações a coisas bobas, como uma ida à mercearia ou aos correios. Mas houve ocasiões em que me proibi de fazer coisas importantes. E tudo porque estava com medo de que alguém me olhasse e decidisse que eu não tinha valor”.



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