Dani Rudz: gorda, negra e empreendedora

Atualizado: Jul 14


Em seu blog, Dani Rudz fala sobre moda plus size, beleza e maquiagem. Hoje ela fala sobre o começo de seu blog, a representatividade da mulher gorda e negra e o empreendedorismo no meio plus size. Natural de São Paulo, Dani é uma das principais criadoras de conteúdo no segmento e uma das maiores inspirações de amor próprio. Rudz começou seu blog em 2015, após mudanças radicais na vida: largou a carreira de biomédica, se divorciou e encontrou a beleza no próprio corpo.








H: Como foi a transição da Dani biomédica para a Dani blogueira?

Dani: Eu trabalhei 20 anos na área, sendo 10 como gestora ou diretora de vários estabelecimentos de saúde em São Paulo. Nos últimos quatro, cinco anos de carreira, trabalhei em clínica de dermatologia e sofri muito preconceito por conta da minha cor e do meu peso. Em janeiro de 2015, eu tirei férias e comecei a me questionar se aquilo me trazia algum propósito, se me fazia feliz, se eu estava deixando algum legado para esse mundo.


Outro fator que afetava era o fato de ser mãe e ter que criar meu filho, porque a sociedade te cobra namoro, casamento, maternidade e sucesso profissional, como uma “executiva exemplar”. A conta não fecha. Eu não conseguia criar meu filho, ele ficava em escolinha e com familiares meus, eu quase não o via. Eu não estava feliz e ainda estava ralando para ganhar dinheiro para os outros. Então, eu pensei: “eu posso parar de ser empreendedora para o outro, de alcançar o sonho do outro, e ir atrás do meu”. Porque se eu podia fazer aquilo para alguém, eu poderia fazer por mim.


Foram 20 dias chorando, questionando e pensando se eu conseguiria abrir mão de um salário fixo e daquele estilo de vida para correr atrás do que me faria feliz. Paralelo a isso, permeando meu ambiente, eu sempre dava dicas de maquiagem e vestimenta para as minhas amigas e colegas e isso ficou muito na minha cabeça. Quando eu decidi parar de trabalhar, minha irmã foi fundamental nesse processo. Ela colocou a mão no meu ombro e disse: “Quero que saiba que a decisão que você for tomar, em termos psicológicos e financeiros, eu vou estar aqui!” Depois dessa força, eu me senti aliviada em decidir que eu iria empreender para mim, só não sabia o que eu fazer ainda.


Entrando em fevereiro eu decidi que iria tirar um ano sabático para pesquisar em qual mercado eu iria me envolver, a única certeza que eu tinha era que seria no segmento de beleza. Comecei a fazer algumas pesquisas de mercado com alguns amigos meus e, mas eu já estava pirando de ter que ficar em casa. Foi aí que eu decidi criar um blog para blogar e não pirar. Então comecei a falar de beleza e maquiagem. Nisso, fui fazendo toda a preparação e avisando só aos meus amigos do Facebook que teria uma novidade chegando. Na primeira sexta-feira em que o primeiro post entrou no ar, eu ganhei 1.500 seguidores.


H: Durante esse processo, como era sua relação com o próprio corpo?

Dani: Eu me escondia demais, usava as roupas do trabalho que eu era obrigada e, em casa, usava as mesmas peças de roupa só que com cores diferentes: uma túnica e uma pantalona. E era só isso que eu usava. Com o blog, eu comecei a me arrumar um pouco mais, me reconhecer um pouco mais. Foi então que, na mesma época, ocorreu um episódio com meu filho. Estávamos na praia, eu tinha acabado de me separar e meu filho pediu para entrar no mar. Quem fazia isso com ele era meu ex-marido. E agora? Quem é que vai? Eu, até então, não usava biquíni, eu realmente escondia o corpo. Comecei a pensar até quando eu iria privar meu filho por ter uma mãe gorda que tem vergonha. Naquele dia eu entrei no mar de roupa e jurei que isso nunca mais aconteceria.

O blog foi acontecendo e as pessoas começaram a elogiar e perguntar da minha roupa. Entre os comentários, um me chamou a atenção: “você é uma representante plus size incrível”. Isso fez com que eu me questionasse e fosse atrás de tudo desse universo. A primeira coisa que fiz foi ir ao Pop Plus (feira de moda plus size). Quando eu cheguei lá, fiquei totalmente chocada. Olhei tudo aquilo e fiquei abismada com esse mundo de pessoas abraçando o corpo gordo. Inclusive, no stand da F.A.T. tinham duas meninas usando as peças da marca, elas estavam ali de sutiã e calcinha e felizes com seus corpos, enquanto eu escondi o meu a vida inteira. Comecei a entender o sentido que fazia estar ali naquele momento de transformação e quão importante era que eu me amasse de verdade. Foram várias desconstruções e o blog explodiu. A moda plus size me chamou, porque as pessoas começaram a elogiar minha vestimenta e pedir dicas. Então hoje o carro-chefe do blog é a moda plus size.


H: E o que você acha do empreendedorismo atual no segmento plus size?

Dani: Amador. Acho que é legal você ter uma iniciativa de empreender, mas você precisa se capacitar. Hoje tem muita gente empreendendo e, no meio plus size, tem muito aventureiro. Esse segmento não é bagunça, é um nicho de mercado sério que merece profissionalismo. Não é só uma brincadeira. Você querer se firmar como uma grande marca e, por trás, ter modelagem ou costura deficiente... Não é legal. O Pop Plus, por exemplo, veio justamente para abrir o mercado, mas tem gente que não decidiu fazer acontecer de verdade. Ainda somos amadores, não só na moda. Ainda temos aquele estigma de gata borralheira e a gente pode mais, merece mais. A gente se contenta com migalha de marca grande de ginástica que fala que vai trazer umas poucas pecinhas plus size, enquanto lá fora tem uma loja especializada em tamanhos grandes. E aqui as pessoas achando incrível, divulgando e aplaudindo.


H: Para você, qual a melhor forma de unir moda e empoderamento?

Dani: Para mim, vestir uma roupa já é um ato de empoderamento. Aquilo me prepara para fazer uma atividade, me sentir segura. Minha vestimenta é minha armadura. Eu penso e escolho minha roupa pensando em qual mensagem eu quero passar, como a Dani Rudz quer se mostrar.


H: E qual a importância da representatividade da mulher negra nesse meio?

Dani: Primeiro vamos falar de algo que me entristece demais: eu não vejo. Somos cotas, gorda é cota e negra gorda é mais cota ainda. Fica claro em campanhas publicitárias que a mulher gorda está ali para cumprir uma cota, porque a moda plus size está em alta, então tem o hype. Mas, se não houvesse, a presença dela não existiria. A importância está nos meus números. Meu público, em sua grande maioria, é formado por mulheres, gordas e negras buscando representatividade, buscando identificação em algum lugar. A importância é ímpar, porque nosso povo é assim, mas há uma cegueira, um branqueamento e emagrecimento.



H: Você sente o impacto na vida das mulheres que tem seguem?

Dani: Totalmente. Eu recebo mensagens diariamente de mulheres se identificando comigo e felizes por finalmente encontrarem alguém preta e gorda fazendo o que eu faço. Elas ainda pontuam as outras poucas que existem e ficam gratas em poder se ver. E eu ficaria mais grada em poder ver alguém ou mais alguém que me representasse. Dentro do meio temos poucas, que são incríveis, e fora é quase nulo.


H: Já encontrou dificuldade em algum trabalho ou parceria no meio plus size por ser negra?

Dani: Sim, porque as pessoas não fazem essa escolha de primeira quando elas têm que escolher. E como eu também sou consultora, quando vou propor uma campanha em que seja escolhido uma modelo negra, o espanto é geral. Eu escuto que a pessoa não estava preparada para uma campanha com alguém negro.


H: Quais suas expectativas no meio da moda plus size?

Dani: Eu gostaria que ele fosse maior e mais profissional, que as empresas saíssem dos pequenos negócios. Acredito que seja hora de impulsionar. Então eu gostaria de ver essas marcas se tornando grandes e médios negócios para que outros novos pequenos negócios possam começar. Adoraria que todos os degraus dessa equação estivessem bem ocupados. Quanto à moda não plus size, eu gostaria de ver marcas pensando em todas as mulheres. Hoje você vê a marca de uma ex-modelo famosíssima e apresentadora que declara moda para todas e quando você vai olhar, o tamanho máximo é 46. Sério que você não está me vendo? Sério que não enxergam o tanto de mulher que veste a partir desse número? Se não é para incluir todas, se não for para fazer para todas, não declare, não use dessa falsa publicidade, melhore. Eu gostaria de ver marcas não especializadas aumentando sua grade e se preocupando de verdade com a diversidade. Já na publicidade, eu quero que a mulher gorda deixe de ser cota. Não só a gente, mas todos os tipos de gente e corpos. Quero ver nas revistas, nas novelas, nas propagandas.


H: E o que a empresa Dani Rudz tem para o futuro?

Dani: Olha, esse ano temos muitos planos a curto, médio e longo prazo. Acho que nossa palavra de ordem em todos eles é: extramuros. Eu quero trabalhar além do meio plus size, quero fazer com que deixemos de ser cota. Vamos continuar o trabalho nesse nicho, mas sair um pouco da nossa zona de confronto e ir falar com aqueles que torcem o nariz para nós.


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