A cultura da dieta e a falsa preocupação com a saúde

Atualizado: Jul 15

Ser gorda em uma sociedade que exige e consome magreza é um desafio diário recheado de preconceito e soluções nada práticas. Vamos começar falando sobre como nossa cultura promove nas mulheres o constante medo da gordura, seja relacionando o corpo magro à saúde, sucesso e beleza, seja por meio da discriminação e ódio aos que não seguem o padrão.


Com a gordofobia, a sociedade foi desenvolvendo um relacionamento patológico com a comida e o movimento. Essa relação se tornou uma obsessão com uma única finalidade: a magreza. A alimentação passou, então, a ser tratada como dieta, que é basicamente uma tática de sobrevivência nessa sociedade gordofóbica. Ao seguir a dieta, a mulher está comunicando que entende os esforços e resultados que são esperados dela e que ela está disposta a fazer tudo ao seu alcance para cumprir com tais expectativas.


A cultura da dieta é, portanto, o casamento entra a indústria da dieta (como pílulas de emagrecimento ou para suprir o apetite; cirurgia bariátrica; programas de perda de peso; etc) e a atmosfera social e cultural que normaliza o controle do peso e a gordofobia. Ela também é a principal em disseminar a ideia de que se você não tem algo, é porque não quer o bastante ou não se esforçou o suficiente.


Nosso contexto naturalizou esse tipo de comportamento que nada mais é que uma prática de gordofobia. Não é normal e muito menos justo qualquer pessoa ser obrigada a cumprir com expectativas sociais e culturais sobre seu próprio corpo apenas para evitar o ódio e a discriminação alheia. E, mesmo assim, essa cultura da dieta concentra muitos esforços para que as pessoas continuem seguindo com essa gordofobia inquestionável.


Atualmente, com a ascensão do movimento body positive e da moda plus size, o termo “dieta” foi caindo em desuso. Entretanto, com o mesmo poder e significado, ele se transformou em “cuidado com a saúde”. Ao invés de tentar atrair o público com a promessa de perca de peso, as empresas têm focado na “melhoria da saúde”. Automaticamente, ‘saúde’ se tornou um sinônimo de ‘magreza’.


Com essa mudança de estratégia, a gordofobia foi reforçada. Dietas fáceis e milagrosas espalhadas pela mídia e redes sociais e o fácil acesso à remédios inibidores de apetite são provas de que o que importa não é a saúde, mas sim o peso. A alimentação saudável e os exercícios físicos são tão constantemente explorados por essa cultura e ligados ao emagrecimento que foi criado um pensamento limitando ambos à magreza. Portanto, se a gorda faz, é porque quer emagrecer e não apenas se cuidar.


Ao limitar a comida e o movimento, a cultura da dieta restringe ainda mais a existência da pessoa gorda. Ela se mostra como um cuidado com a saúde, mas quando envolve um corpo fora do padrão há apenas a insistência para o emagrecimento e a apresentação de soluções para a mudança desse corpo.


Ao invés do cuidado com a saúde ser realmente uma questão de alimentação saudável, condicionamento físico e check-ups anuais, ela envolve apenas uma transformação do corpo gordo em magro, independente da saúde. Enquanto isso, a mulher gorda não se sente bem para comer em público por receio dos olhares, ela tem medo dos comentários maldosos na academia, ela sofre com baixa autoestima, ela tem ou já teve distúrbios alimentares, ela não tem fácil acesso a roupas adequadas para exercício físico, ela sofre gordofobia médica, ela não cabe na máquina de exames, mas ela escuta diariamente que a preocupação com o peso dela é por questões de saúde.


Nós devemos rejeitar a ideia de que o corpo gordo é resultado de um trauma, uma doença, um desequilíbrio ou uma falta de cuidado. É preciso, primeiro, nos libertar desse medo que nos impede de ser quem e como somos e iniciar, imediatamente, uma luta contra a cultura da dieta que nos impõe padrões de corpo e estilo de vida o tempo todo. Temos que parar de ter medo de ser gorda, parar de marginalizar pessoas gordas e reconhecer que nenhum corpo é melhor ou mais bonito que o outro.


*Texto baseado no livro "Meu corpo, minhas medidas" de Virgie Tovar.


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